Autarca de Eja é exemplo de como os jovens têm poder

Isabel Guedes tinha 21 anos quando foi eleita, pela primeira vez, presidente da Junta de Freguesia de Eja, em Penafiel. É um exemplo de como os jovens têm poder e podem exercê-lo, eles que muitas vezes são criticados por não se interessarem pela política. Este e outros temas foram debatidos na manhã desta sexta-feira, em Matosinhos, na primeira conferência de um ciclo organizado pela Federação Académica do Porto, em colaboração com o JN, no âmbito do Ano Europeu da Juventude.



Agora no segundo mandato, a presidente da Junta de Eja não teve a vida facilitada quando se lançou na política, em 2017. Oradora na conferência desta sexta-feira ao lado de outra autarca, Luísa Salgueiro, presidente da Câmara de Matosinhos, Isabel Guedes contou que teve "algumas complicações" no processo de candidatura. Os mais céticos questionavam: "Ela é uma criança. Como é que ela vai conseguir gerir tudo isto e como é que ela vai estar à frente de uma junta de freguesia?". O facto de ser mulher, aparentemente, também não jogava a seu favor. "Sou a primeira mulher, após o 25 de Abril, a assumir o cargo de presidente de junta na freguesia".

Debatia-se o tema "Democracia e Liberdade" e a história que a autarca de Eja contou na primeira pessoa não serviu só como exemplo. Serviu, também, como alerta. É que, no seu entender, "falta algum incentivo" para que os jovens deem o seu contributo, na política como noutras áreas, até porque, acrescentou, esta geração é tida como a "mais qualificada, a mais preparada". Mas não a mais recompensada.

Estava lançado o mote para outras questões, em particular as dificuldades que os jovens enfrentam e que a Federação Académica do Porto (FAP) não quis deixar de assinalar neste dia, 12 de agosto, que a ONU consagrou como o Dia Internacional da Juventude. Desemprego, dificuldades em ter habitação própria (e o consequente adiar da decisão de constituir família) e falta de correspondência entre o investimento feito ao longo da vida académica e o ingresso no mercado de trabalho, tudo problemas agravados pela pandemia, são apenas alguns exemplos.


"Nada está garantido"


Sabendo-se que os jovens de hoje já nasceram em plena democracia, ficaram também alertas sobre os perigos de considerá-la como um dado adquirido. "Nada está garantido", referiu Luísa Salgueiro, lembrando exemplos de países próximos do nosso em que crescem "correntes extremistas de direita, xenófobas, nacionalistas, racistas".

Considerando que é um cliché dizer-se que os jovens são desinteressados, a autarca de Matosinhos lembrou que "há cada vez mais causas" em que eles estão envolvidos, como a ação climática, a defesa das minorias ou os migrantes. Citou mesmo um estudo recente da Fundação Calouste Gulbenkian, segundo o qual os jovens não só são interessados como são interventivos. "Têm é outras formas de o fazer", acrescentou, a propósito do recurso, habitual e irreversível, aos meios digitais.

"Não sinto uma geração amorfa, sinto uma geração interventiva, participativa e que muitas vezes nos desperta para a necessidade de nós reorientarmos os nossos orçamentos municipais", acrescentou, a propósito de, também em Matosinhos, os jovens serem líderes na discussão de muitas temáticas.

As dificuldades sentidas a nível nacional são semelhantes às que Isabel Guedes identifica em Eja, uma freguesia com apenas 900 habitantes e bastante envelhecida. Muitos jovens vão estudar para o Porto e acabam por já não voltar. A presidente da Junta pretende criar um "conselho da juventude", de forma a "criar estratégias" para a freguesia e mudar esta realidade.

Falar dos mais novos é, inevitavelmente, falar também das redes sociais. A propósito, Ana Gabriela Cabilhas, presidente da FAP, referiu que "há um conjunto de oportunidades que devem ser aproveitadas pelos decisores políticos", que, no seu entender, "devem estar com os jovens nas redes". Mas, quando questionada sobre se a era digital significa mais liberdade ou novos problemas, a dirigente associativa também deixou um alerta sobre o uso indevido do espaço digital. Referiu que os jovens têm de ser os primeiros a defendê-lo, mas também têm de saber distinguir "o que é a liberdade de expressão e o respeito pelo outro".

Voltemos à Junta de Freguesia de Eja, que tem página oficial no Facebook desde 2017. Para Isabel Guedes, a era digital não dá à militância política uma falsa sensação de proximidade. Pelo contrário. Apesar de a população estar envelhecida, há sempre um neto ou outra pessoa que consegue, através desta rede social, transmitir à Junta as preocupações dos idosos. A estrada tem dois caminhos: em termos de divulgação, a presidente da Junta consegue chegar a um maior número de pessoas.

A segunda conferência deste ciclo terá lugar em Gaia, a 1 de setembro, e será subordinada ao tema "Sustentabilidade e ação climática". A última sessão, alusiva aos desafios da juventude em Portugal e na Europa, vai decorrer no Porto, a 24 do mesmo mês.


Fonte: JN