Orfeão de Matosinhos: 109 anos a dar ritmo e voz à cultura da cidade
- Notícias de Matosinhos

- 8 de mai.
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Com mais de um século de existência, o Orfeão de Matosinhos é um dos pilares inabaláveis da cultura matosinhense. O NM esteve à conversa com Rosalina Queirós, Presidente da instituição, que nos revelou os desafios de gerir uma estrutura centenária, os planos para o futuro e a estratégia para aproximar as novas gerações.

Em que consiste o Orfeão de Matosinhos?
O Orfeão de Matosinhos é uma instituição centenária, fundada em 1917, que nasceu com um forte propósito cultural e social. Inicialmente ligado ao canto coral, rapidamente se afirmou como um espaço de encontro e de partilha, aberto a todas as classes sociais. Na sua génese, o Orfeão tinha como missão promover a educação, a comunicação e a cultura através da música. Era um movimento que procurava aproximar as pessoas e democratizar o acesso à arte. Ao longo dos anos, essa missão manteve-se, embora adaptada às exigências de cada época.
Hoje, continua a ser um espaço de convívio, criação artística e ligação à comunidade, onde a tradição se cruza com a necessidade de inovação.
Qual é o papel do Orfeão na sociedade atual?
O Orfeão continua a desempenhar um papel importante enquanto ponto de encontro cultural. Mais do que um grupo coral, é uma casa onde se criam relações humanas e se partilham experiências. Atualmente, vivemos uma realidade mais exigente. A comunicação tornou-se mais rápida e superficial, e há menos disponibilidade para atividades presenciais. Por isso, o grande desafio passa por manter viva a tradição, sem perder a capacidade de atrair novas gerações. As associações como o Orfeão são fundamentais para a coesão social. Podem evoluir, adaptar-se e reinventar-se, mas não podem desaparecer.
Quantos sócios tem atualmente o Orfeão?
O Orfeão conta com cerca de 300 sócios.
Esses sócios participam ativamente nas atividades?
Nem todos. Muitos mantêm a sua ligação à instituição de forma mais simbólica, continuando como sócios, mas sem presença regular nas atividades. Existe ainda um desafio adicional: nem todos utilizam meios digitais, o que obriga à manutenção de formas tradicionais de comunicação, como o envio de cartas. Apesar disso, procuramos garantir que todos estejam informados e incluídos.
Como é a participação nas atividades promovidas?
A participação varia. Há sócios muito presentes e outros que aparecem pontualmente, muitas vezes acompanhados por familiares. Curiosamente, os sócios mais recentes tendem a ser mais ativos. Apesar das dificuldades, existe um forte sentimento de pertença. Muitos sócios, mesmo ausentes, continuam ligados emocionalmente ao Orfeão.
Que tipo de ambiente procuram criar nos eventos?
Não procuramos eventos massificados. O nosso objetivo é criar momentos de proximidade e partilha, onde as pessoas possam interagir de forma genuína.
Um exemplo disso foi a celebração do Dia Mundial da Poesia, onde recebemos cerca de 100 pessoas. Mais do que o número, foi marcante ver o reencontro entre pessoas e a necessidade de contacto humano. Esses momentos ficam na memória e dão-nos motivação para continuar.
Como começou a sua ligação ao Orfeão?
A minha ligação começou há cerca de oito anos, quando fui convidada para integrar o coro. Mais tarde, com a saída da direção, o meu marido foi convidado para assumir a presidência, numa fase particularmente difícil, marcada pela pandemia. Após quatro anos, ele deixou o cargo e eu assumi a presidência. É uma responsabilidade grande, mas também um compromisso emocional. O Orfeão “entra-nos na pele” e torna-se difícil abandonar.
Como tem sido liderar uma instituição com tanta história?
É um desafio constante. Liderar o Orfeão exige equilíbrio entre o respeito pelo passado e a necessidade de inovação. Há um património histórico muito forte, com figuras importantes associadas à instituição, o que implica responsabilidade. No entanto, não podemos ficar presos ao passado. É necessário definir uma linha orientadora clara e trabalhar de forma consistente para garantir a continuidade do Orfeão.
Quais são os principais desafios atualmente?
O maior desafio é a renovação geracional. É cada vez mais difícil atrair jovens para o coro e para as atividades culturais. Vivemos num contexto em que os interesses mudaram. A vida é mais acelerada, as rotinas são exigentes e o digital ocupa grande parte do tempo dos mais novos. Além disso, sentimos uma menor adesão do público masculino.
Porque é que acha que os jovens não aderem tanto?
Os hábitos mudaram profundamente. Antigamente, havia mais interação social presencial e atividades coletivas. Hoje, muitos jovens passam mais tempo em ambientes digitais e têm agendas muito preenchidas com atividades escolares e extracurriculares. Para contrariar isso, temos de criar propostas que façam sentido para eles e que despertem o seu interesse.
O que a motivou pessoalmente a integrar o Orfeão?
Sempre tive uma forte ligação às artes. Gosto de pintar, de fazer teatro, de criar. O Orfeão permitiu-me expressar essa criatividade e, acima de tudo, partilhá-la com os outros. Uma das maiores satisfações é ver o crescimento das pessoas. Há membros que chegaram com dificuldades de expressão e hoje conseguem atuar em palco com confiança. Esse impacto humano é extremamente gratificante.
Tem sentido uma evolução positiva no Orfeão?
Sim, claramente. Temos conseguido aumentar a participação e o envolvimento nas atividades. Um exemplo é o Prémio Literário Santos Leça, que passou de seis ou sete participações para 22 obras a concurso no último ano. Isso demonstra um crescimento significativo e uma maior projeção da iniciativa.
Que atividades estão previstas para os próximos tempos?
Temos uma programação bastante diversificada:
Concurso do Vestido de Chita (integrado nas festas do Senhor de Matosinhos)
Encontro de Coros
Uma peça de teatro baseada em “Muito Barulho por Nada”, de William Shakespeare
Noites temáticas internacionais (como uma noite italiana)
Eventos culturais, musicais e solidários
Também estamos a apostar em novas iniciativas, como workshops de guitarra e aulas de bateria, para atrair públicos mais jovens.
Como foi a celebração dos 109 anos do Orfeão?
Foi um momento muito especial. Tivemos casa cheia e a presença de várias entidades e sócios antigos. Um dos momentos mais marcantes foi o hastear da bandeira, acompanhado pelos bombeiros voluntários. Foi uma cerimónia simples, mas com grande significado e emoção.
Que momento destaca como mais marcante?
O orgulho é sempre coletivo. Destaco a evolução do coro e o facto de conseguirmos manter o Orfeão ativo. Também foi muito significativo levar o grupo de teatro ao palco do Teatro Constantino Nery, em Matosinhos, com uma produção de qualidade, apesar de sermos amadores.
Como é que alguém se pode juntar ao Orfeão?
Qualquer pessoa pode integrar o Orfeão. A quota anual é de 18 euros. As pessoas podem começar por assistir a um ensaio, conhecer o ambiente e participar de forma livre. Não há obrigatoriedade imediata — queremos que se sintam bem e integradas.
Quais são os planos para o futuro?
O objetivo é continuar a crescer e a diversificar a oferta cultural. Queremos atrair novos públicos, especialmente jovens, através de atividades mais dinâmicas e participativas. Ao mesmo tempo, pretendemos manter a identidade do Orfeão e o seu papel na comunidade.
Que mensagem gostaria de deixar à comunidade?
Convidamos todos a visitar o Orfeão. Tragam ideias, tragam os vossos filhos e netos. Não queremos ser uma instituição fechada. Queremos crescer com a comunidade e continuar a servir as pessoas. A cultura é um bem essencial — e só faz sentido se for partilhada.














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