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A vida por trás das feiras

O NM esteve presente na Feira de Santana, em Leça do Balio, para descobrir as histórias que dão vida a este espaço tão emblemático. Entre bancas e tradições, conhecemos de perto o percurso de três feirantes que partilharam o seu dia a dia, revelando os desafios, sacrifícios e a paixão que os mantém firmes nesta atividade.

As feiras continuam a ser um elemento importante da vida social e comercial em vários pontos do concelho de Matosinhos. Espaços como a Feira de Santana, em Leça do Balio, a feira de Custóias e a feira da Senhora da Hora reúnem semanalmente vendedores e clientes, mantendo viva uma tradição que atravessa gerações. Entre as muitas histórias que se encontram nestes espaços está a de Artur Andrade, Presidente da Associação de Feirantes do distrito Porto, Douro e Minho, que há mais de três décadas faz das feiras o seu modo de vida.

Artur Andrade - Feirante e Presidente da Associação de Feirantes do distrito Porto, Douro e Minho
Artur Andrade - Feirante e Presidente da Associação de Feirantes do distrito Porto, Douro e Minho

Artur Andrade é feirante há 32 anos. Antes de entrar neste mundo trabalhava numa empresa do setor têxtil, mas foi uma mudança nas condições de trabalho que acabou por levá-lo às feiras. “Trabalhava ao fim de semana na empresa, mas a empresa deixou de funcionar nesses dias. Eu e a minha esposa ainda éramos jovens e decidimos aproveitar a oportunidade. Começámos apenas aos fins de semana, mas depois a atividade acabou por se tornar permanente”, recorda.

O início não foi fácil. Como acontece com muitos feirantes, a adaptação exigiu persistência e capacidade de enfrentar as dificuldades do comércio ambulante. “Foi difícil no começo, mas gostávamos do comércio e fomos ficando. Hoje já estamos completamente enraizados nas feiras”, conta.

Na banca que mantém atualmente vende sobretudo vestuário, mais concretamente calças de ganga, um produto que comercializa desde o início da sua atividade. No entanto, ao longo dos anos foi diversificando o negócio. Há cerca de 12 anos criou uma segunda atividade dedicada à venda de capas e acessórios para telemóveis. A ideia surgiu quando um dos filhos estava a terminar os estudos e mostrou interesse em trabalhar nas feiras. “Acabei por ficar com as duas coisas nas mãos. Hoje trabalhamos em algumas feiras com o vestuário e noutras com os acessórios de telemóveis”, explica.

Numa banca de acessórios nas feiras de Leça do Balio e da Senhora da Hora, Márcio Almeida mantém uma atividade que começou ainda em criança. Hoje com 49 anos, entrou no mundo das feiras aos 12, depois da morte do pai, para ajudar a mãe a continuar o negócio da família.

Atualmente vende carteiras, mochilas, lenços e outros pequenos acessórios. Apesar das longas horas de trabalho e das dificuldades causadas pelo mau tempo

e pela diminuição das vendas, destaca o convívio com clientes e colegas como uma das melhores partes da profissão, mantendo viva uma tradição que faz parte da história das feiras locais.

A rotina de um feirante está longe de seguir um horário tradicional. O dia começa muitas vezes ainda de madrugada e prolonga-se por muitas horas. “Há dias em que acordamos às cinco da manhã. À segunda e à quarta vamos para feiras em Espinho e Famalicão. Aqui no concelho de Matosinhos chegamos por volta das sete”, conta. Ao contrário de um emprego convencional, o trabalho raramente se limita a oito horas por dia. “Nós trabalhamos seis ou até sete dias por semana, muitas vezes com dez ou doze horas de trabalho.”

Entre as várias dificuldades da profissão, uma das maiores está relacionada com as condições do próprio espaço de trabalho. Montar e desmontar estruturas exige esforço físico e o tempo pode tornar-se um adversário constante. “As intempéries são o nosso maior inimigo. O vento, principalmente, é muito complicado nas feiras”, afirma.

Apesar dos desafios, a relação próxima com os clientes continua a ser uma das maiores recompensas da atividade. Ao contrário do que acontece nas grandes superfícies comerciais, nas feiras o contacto é direto entre quem vende e quem compra. “Aqui o cliente fala diretamente com o dono da banca. Ao longo dos anos criam-se relações de confiança e até de amizade”, explica. Para muitos visitantes, a feira não é apenas um local de compras, mas também um espaço de convívio. “As pessoas vêm conversar, passar um bocado do tempo. Antigamente era aqui que se sabiam as notícias da região.”

Com o passar dos anos, no entanto, o mundo das feiras mudou bastante. A concorrência das grandes superfícies comerciais e a alteração dos hábitos de consumo trouxeram novos desafios aos feirantes. “Hoje vivemos numa era muito agressiva no comércio. As grandes lojas também fazem preços baixos e isso tornou-se um grande adversário”, admite. Ainda assim, acredita que o contacto direto e a confiança conquistada junto dos clientes continuam a ser uma vantagem importante para quem trabalha nas feiras.

Para a comunidade local, as feiras mantêm um papel relevante, sobretudo para a população mais velha. “Muitas pessoas ficam ansiosas pelo dia da feira. É uma oportunidade para sair de casa, fazer compras e conviver”, refere. Além disso, os produtos frescos vendidos nestes espaços continuam a atrair muitos consumidores.

A continuidade da profissão, porém, levanta algumas dúvidas. Artur Andrade reconhece que as novas gerações mostram menos interesse em seguir esta atividade. “Tenho dois filhos formados e nenhum quis seguir a profissão do pai. Um deles agora mostra mais interesse, mas não é algo muito comum.” Na sua opinião, parte do problema está também na falta de estabilidade e nas regras que regulam as feiras.

Segundo explica, muitos feirantes trabalham em condições precárias, sem garantias a longo prazo. “Pagamos impostos ao município, mas a qualquer momento podem retirar-nos o lugar. Isso não dá segurança a quem quer fazer um projeto de vida nesta área”, afirma. Para um jovem que queira construir futuro na profissão, a falta de estabilidade pode ser um obstáculo importante.

Apesar das dificuldades, Artur Andrade diz sentir orgulho no percurso que construiu nas feiras. Ao longo dos anos criou amizades com colegas e clientes de diferentes áreas da sociedade. “Temos clientes de todo o tipo: médicos, engenheiros, pessoas de todas as profissões. Todos gostam de vir à feira e isso dá-nos um grande orgulho.”

Numa banca de roupa numa feira em Matosinhos, Filipe Póvoas organiza as peças que vende ao público. Há cerca de 30 anos que trabalha nas feiras, depois de a empresa têxtil onde trabalhava ter encerrado. Como já ajudava ao fim de semana, decidiu dedicar-se por completo a esta atividade.

Hoje vende sobretudo roupa de senhora e trabalha sozinho, já que o negócio já não permite sustentar duas pessoas. Apesar das dificuldades - como o mau tempo e a diminuição das vendas - continua a valorizar o contacto direto com os clientes e o ambiente das feiras ao ar livre, que considera muito diferente do comércio das grandes superfícies.

No concelho de Matosinhos existem atualmente três grandes feiras: a de Leça do Balio, a da Senhora da Hora e a de Custóias. Na opinião do feirante, algumas delas têm perdido dinamismo ao longo do tempo. A feira da Senhora da Hora, refere, mantém uma dinâmica mais forte, enquanto outras enfrentam dificuldades e menor afluência de público.

Para Artur Andrade, a preservação das feiras depende também da forma como são valorizadas pelas autarquias e pela sociedade. “Hoje vemos eventos como feiras medievais, onde as pessoas pagam para entrar para recriar as feiras do passado. Mas para existir essa recriação tem de existir a feira verdadeira. É preciso investir nas feiras de hoje, porque elas fazem parte da nossa história e da nossa cultura.”



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