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De Matosinhos para o Mundo: A Carreira de Hugo Ribeiro

Com quase 30 anos de ligação à natação, o matosinhense Hugo Ribeiro tornou-se um dos nomes mais resilientes das águas abertas em Portugal. Do primeiro pódio em Sanxenxo ao título mundial no circuito Oceanman, o nadador concilia a vida de pai de gémeas com uma rotina profissional dupla: entre os turnos no IKEA e as aulas como professor de natação.

O NM esteve à conversa com o atleta que, com o apoio do projeto Heróis Betano, treina com uma intensidade rigorosa, ambicionando agora conquistar as ultramaratonas mais exigentes do mundo.

Quem é o Hugo Ribeiro?

O Hugo Ribeiro é um marido, pai de gémeas e professor de natação que persegue os seus sonhos como nadador de maratonas em águas abertas.

 

Como começou a sua ligação à natação e, em particular, às águas abertas?

Pratico natação há já quase 30 anos...Por volta dos 8 anos fui aprender a nadar, por indicação médica (devido a diagnóstico de asma e alergias), nas Escolas Municipais de Matosinhos. Acabou por ser uma experiência bastante positiva e no ano seguinte pedi aos meus pais para experimentar a escola de natação do Leixões Sport Club. Pouco tempo depois fui convidado a integrar a equipa de competição do clube, o que acabou por surgir um pouco de surpresa pois, apesar de ter historial desportivo na família, nada tinha a ver com desportos aquáticos.

Entretanto comecei a competir, a evoluir gradualmente e, com o tempo, demonstrando maior capacidade para as distâncias mais longas.

Apenas no verão de 2005 fiz a minha primeira prova de águas abertas. Na altura o meu clube foi convidado a participar num evento em Sanxenxo (Galiza). Como nadador de longa distância quis participar e adorei a experiência. Acabei por ir ao pódio, juntamente com o 7x campeão mundial de águas abertas - o espanhol David Meca, o que despertou ainda mais o meu interesse pela modalidade.

A partir desse momento, quis explorar e conhecer melhor esta modalidade que, para além de gostar, aparentemente parecia ter alguma aptidão natural. Conversei com os meus pais de forma a poder a investir mais a sério nesse sentido, começando a pesquisar e tentar participar em mais competições.

Com o tempo fui fazendo mais provas, alcançando bons resultados e sobretudo ganhando experiência, em especial pela Galiza, não só pela proximidade, como também pela competitividade, premiação e cultura/tradição desportiva na modalidade. Nessa altura, já em 2010, senti necessidade de procurar uma orientação técnica mais específica, uma vez que se tratava de uma vertente muito diferente da natação em piscina. Tive a sorte de trabalhar com treinadores que me ajudaram muito nesse processo. Em especial, quando fui treinar com o Prof. Rodolfo Nunes, em Paços de Ferreira, consegui pela primeira vez adaptar os treinos às exigências das águas abertas, algo que em Portugal ainda é raro, dado o foco estar maioritariamente na natação de piscina.

Com o tempo, e muita dedicação, os resultados foram aparecendo, cheguei ao topo nacional, participei em provas internacionais e conquistei alguns resultados importantes. No entanto, por volta de 2016, tive de interromper a alta competição para me poder dedicar à vida pessoal - casei, fui pai de gémeas em 2018, e a prioridade passou a ser a família. Após a pandemia, já com uma vida mais estabilizada, retomei gradualmente os treinos e senti que o “bichinho” da competição ainda estava presente.

Por volta de 2023 regressei à competição em águas abertas e as coisas começaram a correr bem. Entretanto surgiu a oportunidade de poder fazer parte do programa de apoio a atletas amadores HERÓIS BETANO da BETANO, o que se revelou crucial para, não só poder retomar a competição ao mais alto nível, como também participar em provas de grande prestígio e tentar concretizar sonhos que tinham ficado por cumprir.

Desde 2010, quando iniciei a minha especialização em águas abertas com o Prof. Rodolfo Nunes, no clube GESPAÇOS, o meu foco fora sempre a distância olímpica dos 10 km. Só mais tarde, passei para as ultramaratonas internacionais (provas com mais de 10 km), o que continua agora a ser a minha grande aposta, integrada no projeto HERÓIS BETANO, cujo objetivo é competir nos eventos mais icónicos, exigentes e lendários do mundo, ambicionando alcançar resultados inéditos para Portugal.

Atualmente, devido à minha rotina profissional/familiar e à especificidade da minha preparação, treino sozinho e represento (à distância) a Sociedade Filarmónica Gualdim Pais. O treinador do clube, Prof. Sebastião Santos, é especialista em águas abertas e um amigo de longa data (desde os primórdios da minha carreira) e, mesmo à distância, tem sido um suporte essencial para a minha evolução,  ajudando-me a preparar os treinos de forma estratégica e adaptada.

 

Em que momento percebeu que podia competir a nível internacional?

Foi em 2010, quando iniciei a minha especialização total em águas abertas, com a ajuda do Prof. Rodolfo Nunes. Até então, desde a minha primeira experiência em 2005, de ano para ano tinha vindo a participar em cada vez mais competições de águas abertas, o que me permitiu ir ganhando experiência através do contacto com diversas tipos de condições e competitividades. Felizmente os resultados foram aparecendo, tendo conseguido a minha primeira vitória absoluta em 2006 na "Travesia do Corte Inglés" em Vigo. No entanto, sentia que me faltava algo pois nesta altura ainda não treinava especificamente para águas abertas, e decidi dar o passo seguinte.

Com o tempo, o trabalho que se foi desenvolvendo começou a dar frutos e consegui alcançar um nível competitivo que me permitiria batalhar entre os melhores.

 

Como é a sua rotina de treino numa semana típica?

Uma semana normal de treino engloba, em média, 7 a 10 sessões de água e 2 a 3 sessões de ginásio. As sessões de água são maioritariamente em piscina (Leça do Balio ou Fluvial Portuense), tirando exceções pontuais de treinos em águas abertas caso a meteorologia e a disponibilidade o permitam: no mar ou rio (ex: barragem de Castelo de Bode, acompanhado com o meu treinador). Os treinos de água têm volumes variáveis que, por vezes podem ascender até aos 12/14km numa só sessão. Já o reforço muscular pós-treino (core e ombros) e alongamentos faço quando possível.

Em dias em que tenho treino bidiário, o ritmo torna-se particularmente exigente. A hora de acordar depende do planeamento do dia, mas nesses casos tenho de me levantar cedo para treinar logo de manhã. Depois sigo direto para o trabalho, e, quando saio, volto a treinar — geralmente antes ou depois das aulas que dou. E se ainda sobrar algum tempo ao fim do dia, faço uma curta sessão de ginásio ou reforço muscular/alongamentos.

Os dias são longos, chego muitas vezes tarde a casa e o pouco tempo livre que tenho é para as tarefas normais de casa (que também não podem ser negligenciadas) e sobretudo para conviver com a família, o que é sempre importante, antes de descansar para começar tudo de novo no dia seguinte.

 

Que tipo de preparação física e mental é necessária para competir em águas abertas?

A natação em águas abertas é uma modalidade preponderantemente de endurance, o que envolve uma elevada exigência mental e física. A preparação e os momentos competitivos são muito longos, solitários e testam muitas vezes os próprios limites do nosso corpo.

Como tal, a preparação tem de ser especializada: por um lado, a componente da resistência tem de ser trabalhada de modo a preparar o corpo e a mente para a distância que se vai enfrentar; por outro lado, surge a componente estratégica e de capacidade de adaptação às condições, igualmente importante e que pode ser desenvolvida, não só através de estudo e análise, como também da própria experiência de treino/competição em águas abertas.

No fundo, as maratonas de águas abertas são um derradeiro desafio natatório ao corpo e mente: tentar ser o nadador mais rápido a completar uma determinada distância (grande), sem perder o foco, enfrentando os elementos que a natureza nos opõe, desafiando muitas vezes os limites do corpo humano.

 

Qual é a maior diferença entre nadar em piscina e em águas abertas?

A natação em águas abertas é uma realidade totalmente diferente da natação pura em piscina. Trata-se de uma modalidade altamente imprevisível, onde contam uma data de fatores como a temperatura da água, as condições meteorológicas (vento, correntes), o tipo de percurso (circuito ou "point-to-point"), a orientação, tipo de plano de água (mar, rio), a leitura das condições, as opções estratégicas, drafting, etc...tudo conta e influencia a competição.

E é isto mesmo que eu adoro, esta imprevisibilidade. Não há duas provas iguais. Mesmo em eventos anuais, de um ano para o outro pode haver grandes mudanças das condições e ser tudo diferente, o que por sua vez não acontece na piscina, em que tudo é controlado.

Para além disso, a natação em águas abertas está intimamente associada ao endurance/ultra-endurance, ou seja, à longa distância, não tendo distâncias limite. Sendo assim, as ultramaratonas podem alcançar várias dezenas de quilómetros, ao passo que a maior distância em piscina são os 1500m.

Sobre tudo isto, ainda há o contacto direto com a natureza, que dá um carácter único à modalidade.

 

Como consegue equilibrar a vida pessoal com uma carreira desportiva de alto nível?

De facto, não é nada fácil! O grande desafio é mesmo o tempo, que parece sempre curto. Infelizmente, não sendo um atleta profissional (pelo menos no sentido monetário da palavra), torna-se fundamental gerir o tempo quase ao minuto de forma a encontrar um equilíbrio diário entre treinos, trabalho, responsabilidades e convívio familiar, e ainda ter algum tempo para descansar e recuperar.

No entanto, nada disto seria possível sem um forte apoio familiar - a família é a minha base de suporte que me permite conciliar tudo isto.

Os dias são intensos e exigentes, de modo que a motivação, foco e disciplina têm de estar sempre presentes. Como trabalho em part-time no IKEA, com horários rotativos - ou seja, mudam todos os dias/semanas - tenho de ir ajustando constantemente a agenda diária de forma a encaixar tudo. Para além disso, sou também professor de natação na Matosinhosport, o que até me ajuda, pois uma elevada percentagem dos meus treinos são feitos na mesma piscina onde dou aulas (também por uma questão de conveniência).

 

O que o motiva a continuar a competir e a superar-se?

No final da primeira parte da minha carreira (2005 a 2016) fiquei sempre com um sentimento agridoce. Alcancei um nível e resultados que muito poucos acreditavam que conseguisse. No entanto, tudo isso foi apenas à custa da paixão, trabalho, dedicação e, sobretudo, do investimento próprio (dos meus pais, a quem devo tudo!). Por exemplo, fiz provas internacionais (como taças do mundo e europa) em representação do meu País, onde eu e o meu treinador tivemos de suportar todos os custos. Infelizmente na altura não tive um suporte institucional ou federativo que me tivesse permitido ir ainda mais longe, ficando sempre a sensação de que poderia ter feito mais, em especial, nas ultramaratonas onde me tinha começado a especializar nos últimos tempos.

Felizmente, desde o regresso à competição em 2023, foram surgindo oportunidades que até então não existiram para mim, e que me têm permitido lutar por objetivos ambiciosos e resultados inéditos para as águas abertas em Portugal.

Na atualidade tenho alguns apoios/patrocínios nomeadamente a SUMARPO (fatos de neopreno), RIBSWIM (empresa familiar de material de natação) e, em especial, o programa HERÓIS BETANO que, desde 2024, tem sido uma ajuda fundamental e imprescindível para poder participar e competir nos maiores e mais icónicos palcos internacionais de maratonas em águas abertas.

Em termos motivacionais, é claro que ambiciono deixar o meu legado e a minha marca na modalidade em Portugal. Tive um treinador que me disse uma frase que nunca esquecerei: "Queres ser um, ou ser apenas mais um?" e esse é um lema que me está sempre presente. Para além disso, luto para deixar orgulhosos todos aqueles que estiveram e estão do meu lado, acreditam e apoiam - em especial a minha família que sempre esteve presente, nos bons e nos maus momentos. Sobretudo, espero que um dia, quando as minhas filhas já forem mais crescidas, olhem para trás e tenham orgulho no pai, não só no que ele alcançou, mas no caminho que escolheu, de nunca desistir dos nossos sonhos e objetivos através da dedicação, perseverança, disciplina e paixão pelo que se faz.

 

Tem algum ritual ou hábito antes de competir?

Antes de qualquer competição tenho sempre o hábito de analisar bem a prova: interpretar as condições e percursos, estudar a concorrência, prever cenários possíveis e traçar um plano - há sempre um trabalho prévio a fazer.

Em termos de rituais, por acaso até tenho um: nos momentos de concentração que antecedem a partida numa competição costumo passar areia pelas mãos enquanto, sozinho, me acalmo e foco no que está para vir. Isto quando tal é possível. Não me lembro quando ou porque comecei a fazer isto, mas pode ter a ver com uma cena de um filme que gosto muito - "Gladiador" 🙂

 

Que significado tem para si representar Portugal e conquistar um título de campeão do mundo nas águas abertas?

Penso que para qualquer atleta, o sonho começa por ter a oportunidade de representar o seu País. Para mim, é sempre um orgulho levar as quinas ao peito (ou neste caso na touca) em representação do povo português seja em que prova for.

Por outro lado, alcançar um título mundial será sempre um momento especial e único - ouvir "A Portuguesa" no lugar mais alto do pódio fica-nos na memória, juntamente com todos os sentimentos e emoções que vivi na competição. Esta vitória na final mundial do circuito OCEANMAN 10km (distância principal) marca um feito inédito para um português naquele que é atualmente o maior e mais popular circuito de águas abertas do mundo.

 

O seu palmarés já conta com títulos muito importantes. Qual das suas conquistas considera mais especial e porquê?

Sem dúvida que tive vários momentos que me marcaram ao longo da carreira, mas há 3 que me vêm logo à memória:

O primeiro foi a conquista do meu primeiro título nacional absoluto de águas abertas na distância de 10km (Alqueva, 2014). Foi um objetivo pelo qual trabalhei vários anos juntamente com o meu treinador da altura Prof. Rodolfo Nunes, simbolizando a concretização de todo um processo de especialização na modalidade, não só através da própria conquista, mas também pelo caminho percorrido.

Outro momento que guardo com muito orgulho foi o 4º lugar alcançado em 2015 na Traversée Internationale du Lac St. Jean de 32 km no Canadá e que era simultaneamente Taça do Mundo de Ultramaratonas (FINA Grand Prix World Cup), como parte do antigo circuito mundial de ultramaratonas da Federação Internacional. Esta é considerada por muitos como "a ultramaratona mais difícil do mundo" e conseguir este resultado inédito em tal evento, obtendo a melhor classificação de um português no circuito mundial foi muito especial, apesar de em 2013 já ter conseguido concluir a prova com um honroso 7º lugar. No entanto foi um resultado que ficou sempre com um ligeiro sabor agridoce por ter ficado tão perto do pódio, mas que reforçou a minha confiança e motivação para competir em provas tão exigentes e icónicas.

Por último, o título mundial OCEANMAN 10km obtido em 2025 do Dubai que foi mais um marco histórico alcançado, em que jamais esquecerei o ecoar de "A Portuguesa" no lugar mais alto do pódio. Infelizmente gostaria que tivesse sido um momento partilhado com toda a minha família e treinador, mas tal não foi possível. No entanto, esteve presente o meu Pai, o meu companheiro e apoio de sempre ao longo de toda a minha carreira (e vida) e um exemplo que sempre seguirei.

Claro que há outros momentos também muito importantes, mas estes são os que, por um motivo ou outro, foram mais marcantes. 

 

Quais são os seus principais objetivos para os próximos anos?

Este ano, com o apoio fundamental dos meus patrocinadores, especialmente da BETANO, tenho como objetivos principais competir em algumas ultramaratonas internacionais pela primeira vez e lutar pela melhor classificação possível: Ultraswim Ibiza 30km (ESP), ZEUS Grand Prix 25km (POR) e Wörthersee Swim 34km (AUT). Poderá ainda haver outras participações internacionais mas que dependerão de outros apoios que entretanto possa vir a obter.

Se tudo correr pelo melhor, para o próximo ano tenho o desejo de competir na ultramaratona histórica Santa Fé-Coronda 56km na Argentina, conhecida como "la más linda del mundo", mas ainda é apenas uma ambição e dependerá de vários fatores.

 

Que conselho daria a jovens atletas que sonham seguir uma carreira na natação?

Penso que o que diria se aplica a jovens atletas de qualquer modalidade: acreditem em vocês mesmos, dediquem-se de corpo e alma aos vossos objetivos/sonhos pois com trabalho, disciplina e motivação tudo é possível! Como diz o meu Pai, "O Céu é o limite!".

 

 

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