"Não queremos apenas investir, queremos construir": a visão da SAD do Leça
- Notícias de Matosinhos

- há 19 minutos
- 5 min de leitura
Como se reconstrói a identidade de um clube histórico num dos momentos mais difíceis da sua centenária história? Graças a uma parceria sólida de dez anos com um membro do clube, corria o ano de 2023 quando José Luís Santos assumiu o desafio de liderar um projeto de reestruturação profunda. Para ele, o Leça Futebol Clube é um gigante adormecido com elevado potencial. Hoje vamos conhecer a visão e a estratégia por trás da nova alma dos leceiros.

Como é que chegou ao Leça FC?
A ligação ao Leça surge de forma indireta, mas acaba por ser construída ao longo de vários anos. O meu braço direito, o André da Silva, já trabalhava no clube e tinha um percurso relevante nas camadas jovens, sendo uma pessoa com quem trabalho há quase uma década. Foi com ele que fui desenvolvendo uma paixão e um projeto comum ligado ao futebol, muito antes de existir qualquer ligação formal a um clube.
Esse projeto foi amadurecendo ao longo do tempo, e mais tarde surgiu o contacto do clube. Através do antigo presidente, do Sr. Pinho e do Pedro Vieira, fomos convidados para uma reunião onde nos foi apresentado o estado do Leça. Já existia interesse mútuo e curiosidade sobre quem éramos e o que poderíamos trazer.
Foi nesse momento que conheci verdadeiramente o clube. E desde logo percebi que existia aqui uma oportunidade diferente: um clube histórico, com identidade forte, mas num momento de fragilidade competitiva, tendo acabado de descer à 5.ª divisão.
Mais do que isso, era um clube com margem de crescimento evidente — aquilo a que eu chamo um “gigante adormecido”. Localização privilegiada, proximidade ao Porto, potencial desportivo e estrutural, mas subaproveitado. Era exatamente esse tipo de projeto que eu procurava: algo que não estivesse já estabilizado ou fechado, mas sim com espaço real para construir.
O que o levou a avançar com o projeto?
O que mais me fez avançar foi a combinação entre potencial e abertura humana. Ou seja, não era apenas o clube em si, mas as pessoas que o lideravam naquele momento.
Havia uma vontade clara de encontrar um parceiro sério e de longo prazo, não apenas alguém que colocasse dinheiro e desaparecesse. E isso é uma das grandes dificuldades no futebol: muitos clubes precisam de investimento, mas não estão preparados para partilhar o controlo ou construir em conjunto.
Aqui aconteceu o contrário. Houve uma abertura genuína para construir um projeto conjunto, com liberdade para implementar ideias, estruturar o futebol e profissionalizar áreas que até então não estavam organizadas dessa forma.
Isso criou uma base de confiança essencial. Sem essa confiança, nenhum projeto desta natureza funciona.
Qual é a diferença entre o presidente da SAD e o presidente do clube?
A diferença principal está na natureza da gestão.
A SAD é responsável pela gestão do futebol sénior enquanto atividade profissional e empresarial. Ou seja, tudo o que diz respeito à equipa principal, contratação de jogadores, staff técnico, performance e gestão desportiva.
Já o clube mantém a sua essência histórica e estrutural: formação, modalidades, património, identidade e ligação à comunidade.
São papéis diferentes, mas profundamente complementares. O problema surge quando essas fronteiras começam a ser ultrapassadas.
No nosso caso, sempre existiu uma lógica muito clara: existe apenas um Leça. Não há “clube contra SAD”, nem duas entidades a competir entre si. Isso foi fundamental para evitar conflitos e garantir estabilidade.
Tivemos inclusive experiências anteriores no clube que não correram bem, com projetos de SAD que falharam e deixaram alguma desconfiança. Por isso, foi essencial reconstruir essa confiança com tempo, seriedade e consistência.
Que realidade financeira encontrou na SAD?
A realidade que encontrei era bastante complexa e delicada.
Na prática, era difícil separar o que era clube e o que era SAD, porque devido a incumprimentos anteriores, o clube acabou por assumir também responsabilidades da gestão da SAD. Isso criou uma situação em que as contas estavam profundamente interligadas.
O clube tinha dificuldades sérias, com penhoras e injunções em curso, e a situação era tão frágil que, antes mesmo da formalização completa da entrada, foi necessário intervir financeiramente para evitar um cenário mais grave, que poderia levar à falência.
Na altura, se algumas dessas situações avançassem, o clube poderia até perder capacidade de inscrição competitiva, o que teria consequências muito sérias.
Hoje, felizmente, a situação está estabilizada. Ainda existe um dossiê financeiro pesado, nomeadamente dívidas à Segurança Social e ao Fisco, mas deixou de ser uma situação fora de controlo. Passou a ser uma situação gerível e em acompanhamento permanente.
Qual é o modelo de sustentabilidade da SAD?
O nosso modelo é baseado na profissionalização e no investimento sustentado.
Temos uma estrutura completamente profissional, com direção geral, departamentos técnicos, comunicação, marketing e performance. Acreditamos que, para crescer, o clube não pode depender apenas do rendimento desportivo imediato.
Por isso, grande parte do investimento não está apenas no plantel, mas sim em tudo o que o envolve: pessoas, infraestruturas, scouting e condições de trabalho.
Temos parcerias externas, nomeadamente ao nível de treino e ginásio, e estamos constantemente a trabalhar para melhorar essas condições.
A nossa visão não é emocional nem reativa. Evitamos decisões tomadas apenas por resultados de curto prazo, como contratar jogadores em “desespero” para salvar épocas. Isso cria instabilidade e compromete o futuro.
Preferimos um modelo sustentável, onde o clube cresce de forma estruturada, valorizando jogadores e criando ativos. O objetivo é simples: construir valor dentro e fora de campo.
Que tipo de plantel procuram construir?
Procuramos sempre um equilíbrio muito claro.
Um plantel não pode ser homogéneo. Se tiver apenas jogadores jovens, falta experiência. Se tiver apenas jogadores experientes, falta intensidade e futuro. O equilíbrio é essencial.
Trabalhamos com uma média de idades equilibrada, onde convivem jogadores em início de carreira, atletas em fase de afirmação e jogadores com experiência consolidada.
Esse equilíbrio permite estabilidade emocional dentro do grupo, especialmente em momentos de maior pressão competitiva.
Também valorizamos perfis diferentes: jogadores com potencial de crescimento, outros com impacto imediato e alguns com perfil de liderança.
Uma eventual subida à Liga 3 altera o planeamento da SAD?
Não altera de forma estrutural.
O nosso modelo foi construído sempre a pensar um passo à frente. Ou seja, não trabalhamos apenas para o campeonato em que estamos, mas já com exigências do patamar seguinte em mente.
Do ponto de vista estrutural, o clube já está preparado para competir na Liga 3. Não seria necessário reinventar o projeto.
Aliás, a subida pode até facilitar alguns processos, nomeadamente na captação de jogadores, porque o contexto competitivo torna-se mais atrativo e permite reduzir algumas dificuldades de recrutamento.
Em termos financeiros, também não esperamos uma diferença radical, porque muitas vezes já é necessário investir para convencer jogadores a vir para o Campeonato de Portugal.
Qual foi a maior transformação desde 2023?
O maior orgulho não está apenas nas infraestruturas ou no crescimento desportivo, mas sobretudo na mudança de perceção do clube.
Quando chegámos, o Leça era um clube com identidade, mas com alguma perda de orgulho e ligação emocional por parte da comunidade.
Hoje isso mudou completamente. As pessoas voltaram a dizer com orgulho que são do Leça. Os miúdos levam a camisola do clube para a escola. O clube voltou a ser respeitado.
Essa transformação cultural e emocional é, para mim, o maior sucesso de todos.
Mensagem final aos adeptos
A mensagem é de continuidade e confiança.
Sabemos que o futebol vive de resultados e exigência, mas o caminho não pode ser avaliado apenas por vitórias ou derrotas imediatas.
O projeto está a ser construído a médio e longo prazo, e vai ter altos e baixos. O importante é manter o apoio, acreditar até ao fim e não abandonar o clube nos momentos menos bons.
A energia dos adeptos é fundamental e chega diretamente ao campo. Por isso, mais do que nunca, precisamos dessa ligação forte com o Leça.














Comentários