Um Clube Diferente Desde 1960
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Fundado em 1960 por um grupo de 12 atletas que procuravam um clube mais inclusivo e abrangente, o Clube Naval de Leça nasceu com uma identidade própria e diferenciadora. Ao longo de mais de seis décadas, afirmou-se como uma referência no panorama náutico da região norte, destacando-se na vela, no mergulho e noutras modalidades ligadas ao mar. Hoje, mantém-se como um clube familiar, sustentado pelo voluntariado e pela paixão dos seus associados. Estivemos à conversa com Nuno Carneiro, membro da direção do Clube Naval de Leça, que nos falou sobre a história, os desafios e o futuro do clube. Numa conversa marcada pela paixão pelo mar e pelo forte espírito de comunidade, partilhou connosco a visão de um projeto que nasceu da diferença e que continua, mais de seis décadas depois, a afirmar-se como uma verdadeira família náutica em Matosinhos.

Como nasceu o Clube Naval de Leça?
O clube nasce da divergência de 12 pessoas que eram atletas noutro clube. Estavam descontentes e decidiram criar um projeto com uma visão diferente. Em 1960 fundaram o Clube Naval de Leça, com a intenção de ser um clube diferenciado dos existentes, que na altura se dedicavam apenas à vela.
Desde o início, não quisemos barreiras sociais: qualquer pessoa podia ser sócia, desde que fosse admitida por outros associados. Não havia elitismo. E abrimos portas a várias modalidades.
Quais foram as primeiras modalidades?
Começámos com mergulho recreativo com escafandro e fomos pioneiros na zona norte, tendo inclusive descoberto novos locais de mergulho na região. Depois desenvolvemos a pesca desportiva embarcada, a motonáutica e a canoagem. O clube sempre teve esta ideia de ser abrangente e não fechado numa única modalidade.
A vela acabou por se tornar uma das grandes referências do clube. Porquê?
Na vela destacámo-nos pela dedicação à classe Vaurien, uma classe que surgiu nos anos 50 e que era bastante importante a nível europeu. Era acessível porque qualquer pessoa podia construir o seu próprio barco com três velas e competir.
Nos anos 70 começámos a construir os nossos próprios barcos, com a ajuda do Sr. Freitas, e desenvolvemos essa classe em Portugal. Até hoje somos os grandes dinamizadores da classe Vaurien, embora tenha vindo a perder praticantes devido ao desinvestimento dos clubes.
A vela ainda é vista como um desporto de elites?
Infelizmente sim. Existe essa ideia, mas nós sempre batalhámos para desmistificar esse conceito. As crianças começam em barcos pequenos até aos 13 ou 14 anos, numa classe bastante acessível. O problema surge na transição para classes mais exigentes, onde os custos aumentam.
Muitas famílias não têm capacidade financeira para suportar esses custos — compra de embarcação própria, transporte, inscrições em provas. Para levar oito atletas a uma prova fora, como em Viana do Castelo, pode custar 150 a 200 euros por criança. É aqui que surge a questão do elitismo.
Como trabalham a formação dos jovens?
Temos atividades nas férias de Carnaval, Páscoa e, sobretudo, no verão. Chegámos a receber 300 a 400 crianças, muitas do concelho de Matosinhos e até do interior, que nunca tiveram contacto com a vela.
O nosso objetivo é mostrar que a vela é acessível, familiar e aberta a todos. Sabemos que é um desporto exigente — frio, chuva, sacrifício — e competir com videojogos e outras atividades mais confortáveis não é fácil. Mas a vela dá competências únicas.
Que competências são essas?
A vela desenvolve autonomia, responsabilidade e espírito de equipa. As crianças aprendem a transportar barcos, a trabalhar em conjunto e a respeitar regras. Quando um jovem está sozinho num barco, no mar, com ondas de dois metros, ganha uma destreza e maturidade muito grandes.
Além disso, há o respeito pelo adversário e a consciência de que no mar dependemos uns dos outros. Isso torna-os mais humanos.
O clube funciona apenas com voluntários?
Sim. Não temos funcionários. Tudo é assegurado por sócios voluntários. Cumprimos as burocracias e temos conseguido manter o clube a funcionar bem. Temos cerca de 30 praticantes na classe de Vaurien e cruzeiro, além dos cursos de iniciação à vela.
Temos também centro de mergulho, caça submarina, pesca desportiva e apneia — onde contamos com um recordista nacional com 6 minutos e 15 segundos.
Somos um clube pequeno, mas orgulhamo-nos da diferença. Não estamos aqui para fazer dinheiro, mas para acolher pessoas. Somos uma família.
Como é a sua ligação pessoal ao clube?
Entrei em 2017 como pai. Inscrevi o meu filho na vela. Entretanto fui-me envolvendo, percebi que o clube precisava de ajuda e fiquei por gosto pessoal — era algo que sempre quis fazer e nunca pude em criança.
O meu filho acabou por desistir, mas eu continuei ligado. Fui convidado para a direção e, durante o período da Covid, quando muita gente saiu, pediram-me para ajudar a segurar o clube. Tenho dado o que posso.
A grua nova, o edifício recuperado, os barcos restaurados — são fruto de anos de trabalho. Matosinhos merece um clube naval, pela sua história ligada ao mar.
Quais são os principais desafios atuais?
O maior é a incerteza quanto ao futuro, devido à expansão do Porto de Leixões e à possibilidade de instalação de contentores nesta zona. Isso seria uma grande perda para nós. O mais grave é não termos garantias.
Também enfrentamos as condições meteorológicas, que este ano têm sido exigentes. Mas quem anda no mar sabe que há dias bons e maus — temos de nos adaptar.
Que importância têm os jovens no futuro do clube?
São fundamentais. Sem jovens não há futuro. Sabemos que é difícil mantê-los, especialmente quando chegam aos 16 ou 17 anos e vão para a universidade. Mas muitos regressam mais tarde.
Estamos a trabalhar para criar melhores condições — balneários, sala de formação, embarcações seguras. Queremos garantir continuidade.
Que objetivos tem para o futuro?
O grande objetivo é sobreviver. Garantir uma massa associativa jovem e dinâmica, preservar o legado e assegurar uma sede digna, que aguardamos há mais de 23 anos.
Espero que todo o esforço e dedicação não tenham sido em vão. Acredito que, com o tempo, vai valer a pena.
Quer deixar uma mensagem final?
Sempre que consigo dar formação ou trazer alguém novo para o clube sinto uma enorme gratidão. Isso justifica toda a dedicação.
O Clube Naval de Leça não é apenas um clube — é uma família aberta a quem queira viver o mar de forma autêntica.













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