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Água da torneira em Matosinhos é segura, mas muitos consomem água de origem não controlada

Dia 22 de março celebra-se o Dia Mundial da Água. Leia aqui o artigo escrito pelo Dr. Miguel Maia, do Serviço de Saúde Pública da Unidade Local de Saúde de Matosinhos.

 

Cada vez mais pessoas demonstram preocupação com a qualidade da água que consomem diariamente, não só para beber, mas também para cozinhar, preparar alimentos e realizar a higiene pessoal. A água, enquanto principal constituinte do organismo humano e essencial à vida, desempenha um papel fundamental no funcionamento de todos os sistemas e órgãos. Assim, a qualidade da água ingerida influencia diretamente a saúde, o bem-estar e a prevenção de doenças.

Para garantir uma hidratação adequada, é necessário repor regularmente a quantidade de água que o corpo perde ao longo do dia. Embora as necessidades variem consoante a idade, características físicas, atividade desempenhada ou condições ambientais, recomenda‑se geralmente o consumo diário de cerca de litro e meio de água — o equivalente a aproximadamente oito copos.

Em Portugal, a monitorização da qualidade da água fornecida à população é uma tarefa assegurada por diversas entidades, nomeadamente a Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR), as entidades gestoras (neste caso a INDAQUA Matosinhos) e os serviços de saúde pública. De acordo com a ERSAR, o concelho de Matosinhos atingiu em 2024 um indicador de “água segura” de 99,95%. Este valor significa que praticamente toda a água distribuída é controlada e cumpre os requisitos microbiológicos, físicos e químicos estipulados pela legislação nacional e europeia. Tal desempenho evidencia a eficácia dos sistemas de captação, tratamento e distribuição, demonstrando que a água da torneira no concelho é fiável e segura para consumo humano.

A entidade reguladora refere ainda que, apesar da elevada qualidade da água da rede pública e da disponibilidade de abastecimento em todo o concelho, a taxa de adesão ao serviço em Matosinhos situa‑se nos 93,7%. Este valor, abaixo da média das áreas urbanas da região Norte, revela que cerca de 6% da população — equivalente a mais de cinco mil alojamentos e aproximadamente 12 mil habitantes — recorre a fontes alternativas como poços, furos artesianos, fontes e fontanários públicos, que fornecem água de origem não controlada.

As avaliações realizadas ao longo dos anos demonstram que este tipo de fontes alternativas não cumpre os padrões de qualidade exigidos e, por isso, constituem um risco significativo para a saúde pública. Não é por acaso que muitos destes locais apresentam placas que alertam para o facto de a água ser imprópria para consumo. Ao contrário da água da rede, estas origens não são regularmente monitorizadas nem tratadas, ficando mais vulneráveis a contaminações microbiológicas e químicas.

Embora persista a ideia tradicional de que “água corrente não mata a gente”, tal crença não corresponde à realidade. A aparência clara e “natural” e o sabor agradável não garantem que a água seja segura. Poços, furos e fontes podem conter bactérias, vírus ou metais pesados (como chumbo ou arsénio), nitratos, pesticidas e resíduos provenientes de atividades agrícolas. O consumo desta água pode provocar sintomas como diarreia, gastroenterites, intoxicações ou mesmo doenças mais graves, como hepatite A ou febre tifoide, sendo que crianças, idosos e pessoas com doenças crónicas são particularmente mais vulneráveis.

Importa também referir que a contaminação da água de origens não controladas pode ocorrer de forma súbita e “silenciosa”, ou seja, sem alterações visíveis de cor, cheiro ou sabor – a fervura, apesar de eficaz contra microrganismos, não elimina contaminantes químicos.  

Paralelamente, tem‑se observado um crescimento contínuo do consumo de água engarrafada em Portugal, mesmo em regiões onde a água da torneira apresenta níveis de qualidade reconhecidos internacionalmente. Esta preferência, muitas vezes motivada por perceções erradas, traz consigo consequências ambientais e económicas relevantes. A produção e o transporte destas garrafas implicam consumo de energia, emissões de carbono e utilização intensiva de plástico, cujo tratamento e reciclagem representam desafios significativos para a sustentabilidade.

Face a esta realidade, é essencial reforçar que a água da torneira em Portugal é de elevada qualidade, segura e regularmente controlada. A sua utilização é uma opção mais acessível, económica e ambientalmente sustentável quando comparada com a água engarrafada. Beber água da rede pública reduz o impacto ambiental associado ao plástico e promove o uso eficiente dos recursos hídricos.

Deste modo, a ligação à rede pública de abastecimento de água não é apenas uma obrigação legal, sempre que exista infraestrutura disponível; é também uma medida fundamental de proteção da saúde pública. Optar pela água da torneira significa garantir acesso a um recurso permanentemente monitorizado, reduzindo riscos e prevenindo doenças associadas à ingestão de água de fontes não controladas.

O consumo de água da rede pública é a escolha mais responsável sob três dimensões essenciais: saúde individual, proteção da comunidade e sustentabilidade ambiental. Sempre que disponível, deve ser a opção prioritária para consumo humano, constituindo um investimento simultâneo na saúde e no futuro do planeta.


Artigo escrito por Dr. Miguel Maia - Serviço de Saúde Pública da Unidade Local de Saúde de Matosinhos

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