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O comércio tradicional que resiste em Matosinhos


Há negócios que se medem em números. Outros medem-se em anos, histórias e

relações construídas ao balcão. O de Fernando Amaral pertence claramente ao segundo grupo.

Há cerca de 40 anos que Fernando Amaral abre diariamente a porta da mesma loja em Matosinhos.

Hoje, com quase 80 anos, continua a ocupar o seu lugar atrás do balcão, rodeado de sacos de cereais, aves e peixes, numa rotina que já se confunde com a própria história da sua vida. Mas tudo começou ainda antes de assumir o negócio. A ligação àquela casa vem do pai, que já explorava a atividade quando Fernando era ainda jovem. Na altura, seguia profissionalmente outro caminho, embora acompanhasse de perto o trabalho da família. Depois da morte do pai, decidiu assumir a loja. E ficou. Quatro décadas depois, é hoje um dos rostos mais antigos deste tipo de comércio em Matosinhos.

O gosto pelos animais também não nasceu com o negócio. Em jovem, Fernando Amaral já criava canários e outras espécies de aves. Os pássaros acabariam por ocupar um lugar especial na sua vida, dentro e fora da loja. Entre todos, o canário continua a ser o mais procurado.

A explicação, segundo Fernando, é simples: é um pássaro apreciado pelo canto, ao contrário de outras aves que podem ser mais ruidosas. Ao longo dos anos, porém, pela loja passaram espécies bem diferentes. Houve tempos em que era possível comercializar papagaios, araras e muitas outras aves cuja venda está atualmente condicionada ou proibida pela legislação. As alterações às regras tiveram impacto no negócio. Uma ave de maior porte e valor representava naturalmente uma margem diferente daquela conseguida com a venda de um canário.

Ainda assim, Fernando encara essas mudanças com pragmatismo: a lei mudou e o comércio teve de se adaptar. Também houve outros animais. Pintainhos, coelhos e porquinhos-da-Índia fizeram parte da loja durante algum tempo, mas acabaram por desaparecer.

Exigiam mais cuidados, mais trabalho e criavam maiores dificuldades na manutenção do espaço. Os peixes, pelo contrário, permaneceram. São, explica, animais fáceis de manter em casa, que ocupam pouco espaço e que se enquadram naturalmente neste tipo de comércio. Apesar da presença dos animais, é nos cereais que está uma das maiores forças da casa. A variedade é grande e há um detalhe que ajuda a explicar a identidade do negócio: praticamente tudo passa pelas mãos de Fernando Amaral.

É ele quem prepara as misturas, embala os produtos, fecha os sacos e identifica os lotes. Um conhecimento adquirido ao longo de décadas, mas que começou muito antes, ainda ao lado do pai. Num mercado dominado cada vez mais pelas grandes superfícies, Fernando Amaral não demonstra receio da concorrência.

Confia na qualidade do produto, nos preços praticados e, sobretudo, numa relação de proximidade que foi sendo construída com várias gerações de clientes. Ali, não existem grandes armazéns nem estruturas complexas. Existe um homem, um balcão e décadas de experiência. E talvez seja precisamente essa simplicidade que explique a longevidade.

Aos quase 80 anos, Fernando Amaral continua a preferir os dias passados na loja à ideia de ficar em casa. Diz que ali dificilmente está parado mais do que cinco ou dez minutos. Há sempre alguma coisa para preparar, um cliente para atender ou um animal para cuidar. É essa movimentação constante que ainda o prende ao espaço onde passou grande parte da vida.

Mais do que os cereais, os pássaros ou os peixes, Fernando Amaral parece encontrar no contacto diário aquilo que o faz regressar todas as manhãs: as pessoas, os animais e uma rotina construída durante quatro décadas. Porque, depois de tantos anos, aquela loja já não é apenas o local onde trabalha. É parte da sua história.


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