Uma década a cuidar, ensinar e acolher: os 10 anos da Ser+
- Notícias de Matosinhos

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Em março, a Universidade Sénior Ser+ celebrou 10 anos de atividade em Matosinhos, marcando uma década de dedicação ao bem-estar, aprendizagem e integração social dos idosos. Fundada por António Vilas e um grupo de colaboradores, a Ser+ tornou-se um espaço onde a solidariedade, o convívio e a formação caminham lado a lado, ajudando os alunos a manterem-se ativos, socialmente conectados e emocionalmente apoiados. Nesta entrevista exclusiva ao Notícias de Matosinhos, António Vilas e o professor Jorge Gomes partilham a história da Ser+, os desafios enfrentados, os projetos desenvolvidos e a missão de combater a solidão e garantir dignidade aos idosos, através de ensino, atividades culturais, apoio social e atenção psicológica.

Como surgiu a oportunidade de presidir a Ser+?
António Vilas: É uma história de vida. Eu era empresário e, quando me aposentei, fiquei a gerir os negócios do meu sogro. Na reforma dele, passado pouco tempo, começou a ficar demente. Eu cuidei dele, mas houve uma altura em que os médicos disseram que ele já não tinha condições para estar comigo. Ele era ativo e, de repente, parou, sedentarizou-se e a demência avançou. No dia em que faleceu, morreu por não conseguir respirar. Foi traumatizante. No funeral disse à minha mulher: “Eu vou ter que ajudar pessoas!”
Na mesma altura, aconteceu algo parecido à sogra de uma colega minha, que também é fundadora da Ser+. Disse-lhe: “Também me aconteceu o mesmo, vamos fazer os dois!” Sou uma pessoa ativa, fazia parte das coletividades, e disse ao presidente da altura, António Moutinho Mendes: “Eu vou fazer uma universidade sénior.” Ele quis ser meu parceiro, e assim começou em 2016. Daí surgiu a ligação com o professor Jorge Gomes.
Como conheceu o professor Jorge Gomes?
António Vilas: A autarquia queria ser nossa parceira, mas com a condição de termos um diretor pedagógico. Não conhecia o professor Jorge Gomes, perguntei-lhe se queria trabalhar comigo de forma voluntária e ele aceitou. Conhecemo-nos porque o meu irmão era colega dele, e foi assim que começou a nossa ligação.
Quais foram os principais serviços que tinham ao início?
António Vilas: Foi uma abertura conturbada. Abrimos, houve guerras políticas e estivemos para fechar. Mas os bastidores não me interessavam; eu só queria a parte social, que é o fundamental da Ser+.
Ou seja, queriam tirar as pessoas de casa?
António Vilas: Sim. Hoje, as pessoas vivem numa correria, têm rotinas intensas e, de repente, vem a aposentação. Muitas sentem-se como números, sem humanidade. A irmã da minha mulher aposentou-se e eu não deixei que ficasse em casa; hoje é aluna e professora cá. Parar deve ser gradual. Queremos acabar com a solidão.
Jorge Gomes: Ou até evitar situações de suicídio. Queremos combater a solidão. Temos componente de ensino, social e eventos.
E durante a pandemia, como ajudaram os alunos?
António Vilas: Trabalhámos sempre. Fazíamos as compras para os alunos e levávamos a casa. Pus alunos a fazer máscaras com tecido que seria deitado fora, como batas. Na entrada, dávamos máscaras esterilizadas, nunca parámos.
Quantos alunos têm atualmente?
António Vilas: Cerca de 550 a 560 alunos, variando com a época do ano, mas nunca abaixo de 500. Funcionamos das 9h às 13h e das 14h às 18h.
E em relação às idades?
António Vilas: Temos alunos desde os 54 até aos 96 anos. O mais comum são pessoas na casa dos 70.
Aceitam alunos com necessidades especiais ou limitações financeiras?
António Vilas: Sim. Se alguém quer aprender inglês para o trabalho ou conversar com familiares emigrados, mas não tem condições de pagar, aceitamos.
Jorge Gomes: Também já tivemos de fazer refeições para alunos que não tinham vontade de cozinhar. Fazemos isso discretamente.
António Vilas: Eu dou “sem rosto”. Quem precisa já sofre e tem vergonha; não propagandeamos. Às vezes a autarquia pede ajuda no Natal, mas para nós o Natal é todos os dias: as pessoas precisam de comer 365 dias por ano.
Para além das aulas, fazem atividades no exterior?
António Vilas: Sim. Temos informática, línguas (inglês, francês, espanhol, alemão), desenho, pintura, música (cavaquinho, viola) e atividades físicas. Temos uma psicóloga que trabalha com grupos de “Mente Ativa” e grupos de terapia emocional, além de fotografia e vídeo. Alguns alunos já foram medalhados em competições de fotografia. Também temos ginástica geriátrica.
Jorge Gomes: Os nossos professores “vestem a camisola”. Não é só dar aulas; se um aluno se magoa, vão até ao hospital com ele.
Como tem sido o feedback dos alunos e familiares?
António Vilas: Muitos dizem que a Ser+ é a segunda casa, outros a primeira. Recebemos alunos com dificuldades graves, como um surdo-mudo que sofreu bullying e perdeu a mãe; hoje supera os restantes alunos. As famílias vêm cá só para nos abraçar ou conversar. É tanta falta de carinho.
Fazem passeios e excursões também?
António Vilas: Sim, temos passeios a Lourdes, Miranda do Douro, entre outros. Esgotam sempre e temos sempre lista de espera.
Jorge Gomes: É muito bom, porque iniciámos a Ser+ em março de 2016 com 22 alunos e duas disciplinas. Hoje temos 24 a 26 disciplinas e cerca de 500 alunos ativos.
Têm projetos futuros?
Jorge Gomes: Queremos criar uma “aldeia sénior” com todas as valências a um preço justo, porque muitos lares têm preços elevados e não garantem privacidade ou dignidade.
António Vilas: A nossa ideia desde 2016 é casas individuais ou em banda, com privacidade, mas podendo conviver na cantina. Todos merecem um fim de vida digno.
Que mensagem querem deixar?
António Vilas: É muito importante cuidar das crianças, mas a formação delas depende de como os avós e idosos vivem com dignidade. A política deve garantir respeito e dignidade aos mais velhos.
Jorge Gomes: É muito gratificante estar aqui e ver jovens interessados na nossa história.









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